Brasileira Presa Na Inglaterra

Estava arrumando as coisas por aqui e no meio de revistas velhas encontrei essa reportagem do ano passado, é velho eu sei, mas acho que vale a pena publicar para o pessoal saber que nem tudo é maravilha na terra da rainha.

É uma reportagem da revista Real de Janeiro/2008.

A Real entrevistou com exclusividade uma brasileira condenada por tráfico de drogas e presa na cadeia de Morton Hall, em Lincoln. Em março, ela termina de cumprir sua pena e será deportada para o Brasil.

A oportunidade de ganhar um bom dinheiro numa única viagem à Inglaterra e resolver problemas financeiros foi a motivação de Bia (nome fictício), 51 anos, para aceitar a oferta. Mesmo com medo, ela decidiu correr o risco pensando nas 10 mil libras que receberia. No entanto, o plano deu errado e ela cumpre, desde o dia 16 de julho de 2005, sua pena na cadeia de Morton Hall, em Lincoln, por tentar entrar no Reino Unido com um quilo de cocaína na bagagem.

Condenada a 6 anos de prisão em setembro de 2005, Bia foi beneficiada por uma lei britânica, que permite ao réu cumprir metade da sentença menos quatro meses e meio, o que significa que no próximo dia 3 de março ela encerrará a pior fase de sua vida, quando será deportada de volta ao Brasil. Nunca um ano novo foi tão esperado como este 2008: o ano da liberdade.

Segundo o Consulado Brasileiro, 90 brasileiros estão presos hoje em cadeias no Reino Unido, a maioria deles por tráfico de drogas ou por falsificação de documentos. Aos patrícios que acham que vale a pena correr o risco de ser “mula”, gíria usada no mundo do crime para quem transporta drogas, Bia manda o seu recado: “Nenhuma quantia, maior que seja, vale o direito de ter a liberdade sem regras.”

Real – Como era a sua vida no Brasil antes de vir para a Inglaterra?
Bia: Vivia em São Paulo, onde nasci, com minha mãe, meus dois irmãos e meu filho. Meu pai faleceu há 13 anos. Sou formada em Pedagogia e trabalhava em uma escola com crianças de 1 a 6 anos de idade. Trabalhei lá de 2000 a 2003 e foi um período muito bom, mas a escola faliu e tivemos que fechar as portas.

Real – O que a levou a correr o risco de participar de um esquema internacional de tráfico de drogas?
Bia: Estava desempregada e procurando emprego mais ou menos durante dois anos, até janeiro de 2005, quando conheci, através de uma amiga, um pessoal que mexia com drogas. Eles me mostraram qual era a estratégia para trazer a droga até a Inglaterra. Não aceitei de cara não, pedi um mês para pensar. Mas as minhas dívidas iam acumulando e de repente apareceu a oportunidadepara eu e minha amiga comprarmos uma escola montada com 80 alunos fixos. Pedi a ela dois meses de prazo. Eu teria que entrar com R$ 10 mil e minha amiga com outros R$ 10 mil. Melhor oportunidade impossível! Foi quando aceitei trazer a droga para eles. Não foi fácil aceitar e trazer a droga, mas com todo medo aceitei, mas jurei que seria a primeira e última vez!

Real – Quanto você receberia pela operação e o que você teria que trazer para a Inglaterra?
Bia: Eu traria um quilo de cocaína e receberia £ 10 mil, daria em torno de R$ 40 mil!

Real – O seu contato na Inglaterra seria brasileiro ou estrangeiro?
Bia: Nigeriano.

Real – Algum amigo ou conhecido já participara desse esquema antes?
Bia: Ninguém que eu conheça fazia este esquema antes. Eu fiquei sabendo através de um amigo e uma amiga que conheciam este pessoal, mas eles próprios nunca fizeram. Eles apenas apresentavam as pessoas e ganhavam 500 libras.

Real – Você contou o que faria para alguém no Brasil antes de vir para a Inglaterra?
Bia: Não contei para ninguém, nem para minha família.

Real – Você já havia saído do Brasil antes de vir para a Inglaterra?
Bia: Eu havia saído do Brasil para passear na Espanha, fiquei dois meses em Málaga.

Real – Me conte o que aconteceu quando você chegou ao aeroporto. Como e quando foi a sua prisão?
Bia: Bom, quando cheguei ao aeroporto fiquei em uma fila da imigração. Quando chegou a minha vez me conseguiram um intérprete português. Me fizeram muitas perguntas e eu respondi todas friamente, pois sabia que não podia falhar. Depois de um tempo um agente pediu que eu o acompanhasse para checar minha mala, meu corpo e fazer um teste de xixi. Aí eu sabia o que aconteceria. Eu fui presa no dia 16 de julho de 2005.

Real – Quem foi a primeira pessoa que você contatou após ser presa?
Bia: A primeira pessoa com que eu falei foi a minha mãe.

Real – Você teve alguma ajuda da Embaixada ou do Consulado brasileiro em Londres desde o ocorrido? Você tem advogado?
Bia: Advogado eu não tenho, aqui eles ofereceram um, mas depois da minha sentença, ele nunca mais me procurou. Quanto a Embaixada, sempre que peço, eles me ajudam me enviando roupas de frio e algumas revistas.

Real – Como você foi tratada pela polícia inglesa? Houve algum excesso por parte da polícia no seu interrogatório ou depois, na prisão?
Bia: Não posso reclamar, pois me trataram muito bem, creio que os oficiais ingleses são todos muito humanos.

Real – Quando foi o seu julgamento e que pena você terá que cumprir?
Bia: O meu julgamento foi em 30 de setembro de 2005 e recebi uma sentença de seis anos. Mas aqui (na Inglaterra) tem uma lei que você cumpre somente metade da sentença menos quatro meses e meio e é deportado para o seu país. Então minha sentença termina em 3 de março de 2008, graças a Deus, ufa!

Real – Qual foi o período mais difícil nesses mais de dois anos presa?
Bia: Foram os seis primeiros meses, pois é muito estranho, quase ninguém fala a sua língua. Nos seis primeiros meses fiquei perdida, mas depois a gente se acostuma e creio que vou sentir um pouco de saudades, pois vou deixar várias amigas aqui.

Real – Como é a sua rotina na cadeia? Você fez amizades? Estuda? Como faz para passar o tempo?
Bia: Fiz muitas amizades, eu estudo e trabalho no restaurante. Aqui para mim não é rotina, pois a gym (academia) oferece vários tipos de esportes, aeróbica, jazz e exercícios físicos. Esta prisão é “semi-open”, não existem celas. Cada uma de nós tem um quarto grande com banheiro e chuveiro, temos TV 14 polegadas e armário embutido na parede. Eu tenho rádio com cassete, CD e DVD. Nenhuma presa divide o quarto com outra. Aqui somos 320 mulheres de toda parte do mundo.

Real – Você tem acesso às notícias do Brasil? Tem acesso à internet?
Bia: Tenho acesso a notícias do Brasil só quando o Consulado ou vocês me mandam revista. Não temos acesso à internet.

Real – Você recebeu visitas de amigos ou familiares durante esse período na cadeia?
Bia: Nunca recebi visitas de amigos nem da família, bem que gostaria!

Real – Depois que cumprir a pena, você será deportada para o Brasil. O que pensa sobre o seu futuro?
Bia: Bom, quanto ao meu futuro não sei, pois agora vou chegar mais endividada ao Brasil e só peço a Deus todos os dias que me abra uma porta para um trabalho, realmente não sei o que fazer!

Real – Tem medo de ser discriminada no Brasil por pessoas que conhecem a sua história?
Bia: Medo de ser discriminada não! Pois pretendo explicar a todos que as prisões aqui são bem diferentes que as do Brasil! E para comprovar vou levando rádio, DVD, roupas diferentes e principalmente dois certificados que tenho!!! Um de inglês e outro de matemática. E estou tentando o certificado de “Level 1 English” (Inglês nível 1) que talvez eu consiga terminar em fevereiro. Aqui eu tirei o máximo de proveito, aprendi culturas diferentes, costumes, danças e creio que de alguma forma eu adquiri experiência de vida!!!

Real – O que você diria às pessoas que estão em dificuldade financeira e pensam em se arriscar para ganhar “dinheiro fácil”?
Bia: Eu digo para que não façam isto, pois nenhum dinheiro do mundo vale a nossa liberdade. E quando se faz uma loucura dessa, fazemos sofrer todos aqueles que nos amam, pois só eu sei o quanto sofre a minha mãe, meu filho e meus irmãos.

Real – Qual o seu maior sonho hoje?
Bia: O meu maior sonho é terminar a minha sentença, voltar pra minha família, esquecer o ontem e procurar viver dignamente o amanhã, pois nenhuma quantia, maior que seja, vale o direito de ter a liberdade sem regras.

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4 thoughts on “Brasileira Presa Na Inglaterra

  1. Rod

    Oh Portuga,
    O nosso brazil e uma mae, ta la com os seus bracos arreganhados, igual ao cristo redentor, e so ir …
    Diferente da Europa que sempre manda nosso povo de volta.

    Enjoy it !!!

    responder

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